Viva Cristina

Miguel Baldez

Li, no Globo do dia 02 de novembro, ritual a que me obrigo diariamente na inevitável procura de informações, duas notícias que me chamaram a atenção por ser cada uma, em tese, a negação da outra, numa delas o regosijo do colunista pela parceria entre os órgãos de repressão da União e dos estados do Rio de Janeiro e de São Paulo para combater e desarticular a ação do povo nas ruas daquelas cidades, o que vem acontecendo desde o mês de Junho deste ano de 2013, data, por isso mesmo, inscrita de vez na história do Brasil, sem esquecerem-se as demais cidades de gente nas ruas e praças em importante revivescência democrática da campanha pelas diretas já.

Com o objetivo de criminalizarem e punirem os black blocs, fundados numa lei cuja razão é a violência, o que pretendem, eles sim mascarados de fantasmas de épocas passadas, é impor ao povo, sob o pretexto de protegê-lo, regras coercitivas de nítida inspiração fascista.

O que são ou significam os black blocs se não uma tática de enfrentamento de quem apanhou a vida toda dos poderes institucionais. Assim se lhes negaram tudo a vida toda, se só lhes deram desprezo, abandono, policia e porrada, se no revide histórico passa, nem sempre ressalve-se, uma que outra ação violenta, entendê-la como ato também histórico de legitima defesa não será demasia nem, tampouco, uma aberração politica ou jurídica.

Quanto à outra notícia, valeu como um raio de luz, embora tênue, vindo lá do Ministério Público de São Paulo. Todos lembramos a violência praticada pela policia de São Paulo, no despejo de moradores do Pinheirinho. Pois o Globo, sem dar o destaque que a notícia merecia, mostrou, na mesma edição, a denúncia que o digno promotor do MP de São Paulo fez contra o coronel da policia militar que comandou aquela sórdida operação, da qual participaram “quase dois mil homens armados com metralhadoras, cassetetes, bomba de gás e equipamento de spray de pimenta. Foram usados dois helicópteros, 40 cães, 100 cavalos”, conta o Globo, e, sem tirar a mascara institucional que o poder lhe dá, registra, ainda, que advogados e defensores públicos, ao tentarem intervir a favor dos moradores,” foram recebidos com bombas de gás e tiros de borracha”.

Se é assim – e sempre foi – a prática oficial, então quem reage, protegido ou não com mascaras, contra a costumeira e brutal repressão, age, juridicamente, em legitima defesa deste humilhado povo pobre do país.

E o título?  “Viva Cristina” nada tem a ver com o dito neste artigo, dirão vocês. Realmente não tem, mas é uma homenagem à presidenta Cristina Kichner pela coragem demostrada ao acabar com o monopólio do jornal Clarin, comparável, na Argentina, ao Globo ou ao Estado de São Paulo ou a Folha de São Paulo, aqui no Brasil. E a presidenta do Brasil, dona Dilma Roussef? Que inveja dos argentinos…

 

Miguel Baldez é professor universitário e militante dos direitos e movimentos sociais no Brasil. Por seu trabalho recebeu diversos prêmios e condecorações, dentre as quais destacam-se a Medalha Chico Mendes e a Medalha Pedro Ernesto.

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