Manifesto Contra o Aumento

por Matheus Lara

Aos militantes, aos trabalhadores, aos estudantes, ao povo em geral.

As revoltas pelo aumento da passagem não são apenas uma indignação por alguns centavos, pelo direito legítimo de ir e vir ou pela liberdade de expressão. São um grito, motivado por mais um dos absurdos que roubam nossas vidas diariamente. Nossas vidas estão ameaçadas, seja na continuidade ou na forma como vivemos. Pagamos o preço do silêncio e pagamos o preço do grito. De qualquer forma pagamos.

O Governo Brasileiro, os Estados e Prefeituras alegam estarem em um Estado Democrático, onde o povo decide as ações. Mas este povo não tem sido perguntado e muito menos atendido. Somos depositados em caixas de sapato com rodas onde somos confinados por duas… três horas até chegarmos no nosso trabalho. O nosso dia se resume em uma rotina de exploração, cansaço e submissão, onde vivemos num semiaberto invertido, em que passamos o dia na prisão e a noite em liberdade. Temos liberdade?

Perdemos nossas vidas nas ruas todos os dias, seja pelo desperdício (como no tempo que levamos indo e voltando do trabalho), seja pela violência, que assola as periferias e morros e é refletida pela cidade toda. Mas de onde vem a violência? Como ela surge? Surge do lucro sobre o trabalho, da expulsão do pobre dos centros e das áreas baixas, vem da educação precária e de uma vida de falta de respeito.

A cada dois anos ouvimos falar de democracia. Uma democracia de uso, quando usam a nossa boa fé para conquistar o poder, e uma democracia de abuso, quando assumem os cargos eletivos para favorecerem a si próprios e aos interesses dos grandes empresários, seus financiadores de campanha. Se dizem nossos representantes e dizem que atendem nossos interesses. Atendem?

Não escolhemos os rumos da sociedade, não escolhemos onde o dinheiro é gasto. Se você tivesse o poder de escolher, escolheria entre um novo estádio, que vai expulsar o pobre do futebol, ou por uma escola de qualidade para você ou para seus filhos? Sua escolha seria “revitalizar” uma área da cidade ou revitalizar os hospitais e postos de saúde dela como um todo?

Usam o poder concedido para transformar as cidades em lucro, constroem, constroem e constroem, mas a cada construção nova vemos mais pobres na rua, mais jovens usando drogas e mais tempo gastamos para chegar em nossas casas, tempo esse que não é pago pelos nossos patrões. Mas quem paga?

Nós pagamos! O trabalhador foi expulso dos centros e é obrigado a voltar a ele todos os dias pagando tarifas cada vez mais absurdas no transporte coletivo, no transporte que era para ser público, mas que é cada vez mais privatizado sob a alcunha de uma “concessão”. Os traçados das linhas são feitos para que utilizemos várias conduções, gerando o pagamento de novas passagens e habilitando o empresário a ganhar o máximo superlotando cada carro.

Alguns alegam que é o patrão paga a passagem. Isso é mentira! Desconta-se do salário de cada trabalhador parte da passagem e, a cada mísero aumento que recebe, contribui mais. Alguns alegam que têm gratuidade. É mentira! Os impostos que pagamos na nossa moradia e na nossa comida alimentam os empresários quando os governos pagam os passes. Outros falam dos programas em que podem pegar mais de um ônibus com um valor fixo, mas estes programas são uma enganação. São um instrumento para fazer com que as passagens aumentem e a gente não perceba, mas saibam que a diferença entre o que pagamos e o valor real da passagem é entregue pelos nossos governos às empresas de transporte. Diariamente, no Brasil, milhões de pessoas se deslocam com esse tipo de “benefício”. Que diferença essas somas não fariam caso fossem investidas nas pessoas e não nas empresas?

A luta não é por alguns centavos, irmãos. É uma luta por direitos e por esses direitos é que sofremos. Nós corremos, nós sangramos, nós choramos, nós apanhamos e somos presos, ameaçados, criminalizados. Neste momento chegam a nos chamar de quadrilha! E como reagimos?

Reagimos com música, com arte, humor, comunicação e com emoção. Alguns de nós se exaltam e destroem algum símbolo das empresas, das prefeituras ou dos Estados que nos oprimem. Mas como contrariar esses companheiros, já que todas as vitórias do trabalhador até hoje foram conquistadas com depredação e violência contra o opressor? Se hoje não ficamos 16 horas no trabalho, se temos férias e 13º salário, foi na base da “baderna” que conquistamos. Não digo a vocês, companheiros de sofrimento, que se arrisquem, se exponham com atos de depredação, mas não é justo criminalizar a luta desses nossos irmãos.

Por isso, que todos participem dos atos! Estejam nas ruas, manifestem sua indignação, levem suas lutas pessoais e as tornem coletivas. Que o seu sofrimento seja de todos e que o de cada um seja o de vocês. Vamos gritar, vamos cantar, rir e pular. Estejam nos atos e vejam, com os seus próprios olhos, quem são as pessoas que estão neles. Compare a verdade que você vê com a “verdade” da TV. Mas tomem cuidado, porque saber a verdade pode mudar suas vidas e sua forma de pensar o mundo. É exatamente para isso que todos são convidados, para que abram os olhos.

Deixemos cada um os nossos egos e diferenças de lado, por mais difícil que isso seja certas vezes. Saibamos perdoar e abraçar nossos companheiros para a luta, todos eles! Lutemos juntos e, juntos, conquistemos algo além de uma revogação de aumento, mas que a revogação do aumento seja o início de uma sociedade mais justa, que sirva para nos dar força e conquistarmos novamente o direito sobre nossas vidas, sobre nossa saúde, sobre onde vamos morar, em que escola nossas crianças vão estudar. Que ninguém mais seja explorado e escravizado, que ninguém mais seja expulso da própria casa, que a cor da pele, o gênero ou a sexualidade sejam filtros de quem tem ou não tem direitos, que o jovem tenha futuro e que o velho tenha acolhimento.

Somos irmãos, somos companheiros e, como companheiros, que estejamos unidos e que sejamos sempre um a mais, e mais um!

Vem! Vem! Vem pra luta, vem!!!!

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